Mensagem dos Educadores

"A prevenção da neurose no mundo somente será possível quando aprendermos a cuidar de quem ainda é saudável, de quem ainda não foi afetado: as nossas crianças". (Wilhelm Reich)



Textos Pedagógicos

O papel social da educação infantil

Educação Infantil: existe fórmula para educar nossos filhos?

Indicadores de Qualidade na Educação Infantil  - UNICEF

Toda hora é hora de cuidar - Cartilha da Família - UNICEF

Toda hora é hora de cuidar - Manual de Apoio - UNICEF

COMO APROXIMAR A FAMÍLIA DA ESCOLA



            Estamos vivendo hoje um momento em que as instituições escolares estão passando por transformações nas suas práticas educativas, tendo que mudar o conceito de educar e a sua relação com as famílias. No século XXI onde as informações são rápidas e de acesso fácil, a mídia e informática têm ocupado esse lugar com mais competência, no trato da informação  A escola perde espaço nesse sentido porque  ainda se mostra um lugar triste, em que as crianças uniformizadas e arregimentadas praticam, contra a sua vontade um dever difícil de aprender.

            Essa escola tradicional, que não inclui a família no seu projeto educativo, porque não a reconhece com saberes  excluí também a família de reconstruir juntas uma nova escola, mais ousada, inovadora com nova visão de educar e aprender.

            A estrutura familiar também vem mudando continuamente em conseqüência das alterações sociais, econômicas e culturais. Muitos fatores afetam sua configuração, a forma de seus membros de se relacionarem e seu modo de ser e educar os seus filhos. Hoje não há um modelo de família e a escola está tendo dificuldade de reconhecer e se relacionar com essa nova estrutura familiar.

            A educação infantil  não tem sido diferente em relação a dificuldade em aproximar os pais num  contexto de parceria sob a forma de comunidade de aprendizado, oferecendo atividades no interior da escola que apóiem a família na educação dos seus filhos neste século XXI.

A sua história de participação está comprometida com uma cultura de pobreza, de favor e dos desfavorecidos. Nos últimos anos a educação infantil tem passado por mudanças significativas com relação ao reconhecimento dos direitos da criança e a inclusão da primeira infância como uma etapa da educação básica.

Modificar essa cultura implica em desafios das nossas práticas profissionais criando espaços flexíveis em que possamos trabalhar de formas diferentes com os pais.

O Cei Suzana Campos Tauil  , tem tido como foco essa conquista, por caminhos diferentes mas parceiros iguais, em suas práticas, procurando  aproximar a família na escola e  desafiando os construtos tradicionais da criança e da família, comprometendo-se com uma abordagem baseada em pontos fortes: valorizar os pais como educadores e defensores de seus filhos e compartilhar a educação deles com a participação ativa no CEI.


RELAÇÃO FAMÍLIA E CEI:

UMA CONSTANTE CONQUISTA



            Este texto tem como propósito refletir sobre a experiência da participação da família no Centro de Educação Infantil Suzana Campos Tauil, como parceira na caminhada educativa. Buscou-se, a partir das relações vividas no cotidiano com a Família, as Crianças e os Educadores, construir uma prática educativa inovadora, com o objetivo de ressignificar o conceito de participação da família no CEI.

                        O CEI Suzana Campos Tauil é uma instituição da Prefeitura do Município de São Paulo e foi implantado em 1990. Atende a criança de 0 a 3 anos em período integral de 10 horas. Localiza-se numa região de classe média, dotada de  infra-estrutura urbana e  serviços, como bares, restaurantes e comércio diversificado,  em área onde se destaca um importante centro hospitalar e de ensino médico. A preferência das famílias tem sido a de colocar os filhos em  período integral no CEI. Essa demanda não é só de famílias moradoras da região, mas também daquelas que o pai ou a mãe trabalha no bairro, mas  moram em outro região.

Apesar de, ao longo do tempo o CEI ter incluído a família na  proposta pedagógica, como importante na educação da criança pequena, a participação da família ainda é tímida. Segundo Formosinho, referindo-se à  participação da família, é preciso desconstruir-se o modo tradicional da pedagogia transmissiva, a  que não valoriza o saber do outro, e conseqüentemente não reconhece os familiares com saberes.

 É necessário vivenciar com as famílias o entendimento de uma pedagogia participativa. Uma pedagogia centrada na práxis de participação que procura responder à complexidade da sociedade e das comunidades, do conhecimento, das crianças e de suas famílias, com um processo interativo de diálogo e confronto entre crenças e saberes, entre saberes e práticas, entre práticas e crenças, entre esses pólos em interação e os contextos envolventes” (Pedagogia da Infância,  p.15, 2007).

O objetivo do Cei é desenvolver a capacidade dos pais e filhos de serem usuários competentes dos serviços prestados. Não ser apenas clientes recebendo passivamente doses generosas de serviços sociais, mas parceiros iguais e ativos do desenvolvimento e na avaliação do que está sendo oferecido.

Melhorar esse convívio e garantir qualidade nessa relação família e educadores seria o primeiro passo, isto é, partir do que já temos conquistado.

Na proposta educacional do CEI temos como princípio que a educação deve ser um processo contínuo e permanente de desenvolvimento do ser humano e que abrange não só os aspectos cognitivos desse desenvolvimento, mas também os seus aspectos emocionais e sociais, e que acontece através das múltiplas interações do indivíduo com seu ambiente humano e natural, fora e dentro da escola;

 Temos incluído a família nos eventos de formação, tendo como foco o “brincar”, com oficinas,  recreação, mostras e outras atividades , procurando  construir,  com a participação da família, um espaço de convivência, onde nesta relação possa se conhecer e se valorizar, seja nos serviços  educativos oferecidos às crianças e ao mesmo tempo dar apoio às famílias no seu jeito de ser e educar os seus filhos, rompendo com o mito de que só a escola educa.

Entendemos que  a forma como as  crianças  são educadas, seja na Família, seja   no CEI   é responsabilidade dos adultos e de criarem oportunidades  oferecendo-lhes no ambiente de vivências  brinquedos e brincadeiras. Esse aprendizado na infância torna-se decisivo para sua vida presente e futura de cidadão que vai emergindo. (Kishimoto, 2007).

Essa proposta educacional que inclui a família como parceira no processo educativo, deixa clara sua função de aprofundar e de alargar os valores da criança, previamente desenvolvidos no contexto da família (Dewey, 1897). Reconhece e valoriza  a  família  como a principal responsável pelo cuidado e proteção das crianças, desde a infância até a adolescência. A introdução delas na cultura, nos valores e nas normas da sociedade inicia-se na família e se amplia no CEI.

Nessa perspectiva as crianças no CEI devem crescer num ambiente de aprendizagem que seja alegre, com amor, compreensão e segurança para brincar e aprender. Entendemos que as crianças dentro ou fora da escola elas são crianças criativas, inquietas, curiosas, perguntadeiras e que gostam de aprender.

O CEI funciona  como uma alavanca, um suporte, um provocador dessa capacidade de aprender que é natural  às crianças.Todavia, para que esse espaço possa garantir tais direitos é preciso investir no ambiente educativo, incluindo a participação da família.

Os ambientes infantis devem garantir atividades envolventes com as crianças e estar integrados com projetos pedagógicos que dêem voz a elas e reconheçam a família como parceira nessa tarefa, em comunicação com outras instituições sociais, no quadro da cultura envolvente (Oliveira-Formosinho-2007).

            Há que se considerar também a necessidade de firmar, no âmbito dessa proposta, parcerias com instituições que colaborem com estudos e pesquisas das práticas educativas, ajudando na reflexão das ações com as crianças e a família e tendo em vista a melhoria da qualidade educativa desse espaço. É necessário que esses parceiros pensem a criança como um ser participativo, garantam seus direitos educacionais e busquem a construção de um espaço/ambiente adequado à infância.

            Assim, considerando essa necessidade de contar com colaboradores para a melhoria do atendimento educativo, principalmente nas relações criança-criança, criança-ambiente, criança-educadora e CEI-Família, a equipe de educadores do CEI buscou e hoje faz parte da rede de pesquisadores do Contexto Integrado de Educação Infantil da FEUSP-Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. O objetivo é refletir sobre as ações  educacionais no cotidiano desse CEI, a partir de estudos das práticas mais inovadoras à luz de teorias que as fundamentem.

            Os desafios que o CEI vem empenhando na formação dos educadores em serviço é investir no ambiente, tendo como critério de base a prática educativa: o respeito ao brincar da criança; o respeito ao direito à individualidade; a visão unitária e integrada das experiências, a relação espaço-ambiente deve ser favorecida para a família e pensada para a criança e a relação educativa deve incluir o envolvimento da família, respeitando a singularidade
           

            Desde a implantação do CEI, em 1990, tem-se buscado aproximar mais as famílias do trabalho realizado no CEI, com o propósito de construir uma prática educativa mais colaborativa, dando ênfase ao debate e ao diálogo. Hoje há uma parceria entre casa-escola facilitada por um entendimento compartilhado sobre o papel da professora, que anos atrás era confuso, pois ela era vista como substituta materna.

            Não tem sido um exercício fácil. Porém, já se percebe ao longo desse período retornos positivos dos pais, declarados na avaliação desse trabalho nos diversos encontros organizados pelo CEI. A maioria verbaliza a satisfação e confiança com relação à dedicação dos profissionais, destacando os avanços no desenvolvimento de seu filho depois que entrou no CEI. Apesar do reconhecimento e da valorização desse espaço como educativo, algumas mães ainda fazem  suas observações com o foco nos  cuidados.

            A cada ano tem-se procurado aprimorar esse trabalho com reflexões sobre a gestão pedagógica das relações com a família. À medida que o CEI se abre e se mostra como é, torna-se possível enriquecer a colaboração e participação dos atores: crianças, educadores e família. Assim, ficam claras  as intenções do Projeto Pedagógico. Alguns pais questionam a forma de agrupamento de crianças maiores junto com crianças menores, temendo acidentes com seus filhos. 

Com os questionamentos temos a oportunidade de dialogar e esclarecer a intenção pedagógica, com relação à formação de turma, grupos de crianças homogêneos e a necessidade em alguns momentos da rotina serem heterogêneos por idade, como por exemplo, o Berçário Maior se juntar na entrada e saída com as crianças de 1º estágio. À medida que as mães constatavam que não havia problemas e que isso contribuía com o desenvolvimento de seus filhos, passaram aceitar essa proposta.

 Os pais e educadores participam da decisão das compras dos móveis e materiais escolhidos em função do espaço e do projeto pedagógico que valoriza as brincadeiras das crianças Neste diálogo procuramos deixar claras a proposta do CEI e a importância do brincar.

Essa função, que é do Coordenador Pedagógico, requer um diálogo constante  com a direção e educadores. O Coordenador identifica os problemas, muitas vezes de natureza organizacional e administrativa, que dificultam a realização do projeto pedagógico e, junto com a direção,  procura as soluções possíveis com a colaboração dos  educadores e da família.

O compartilhamento  da proposta pedagógica com a família não tem sido suficiente para garantir tranqüilidade de  algumas mães em deixar seu filho tão pequeno na responsabilidade de outro, que não é da família. Isso é compreensível porque as crianças são muito pequenas, e é natural a preocupação dos pais em relação aos cuidados que elas receberão. Eles demonstram isso por meio de perguntas ou queixas relativas à saúde de seus filhos. “O que ele  comeu?” “Ele foi trocado?” “Limpou-se direito?” “Tomou banho?” “Quem o mordeu?”  A comunicação se dá pelo cuidado. As preocupações de alguns pais reveste-se de significados , que são lidos pelos educadores sob diferentes interpretações: assertivas e negativas.

São assertivas quando, a partir das queixas, elogios ou perguntas, propiciam a aproximação dos familiares, estabelecendo uma relação significativa de comunicação. Assim, abre-se a oportunidade de diálogo, como falar sobre o dia-a-dia das crianças, os projetos, o jeito como a mãe cuida do filho, a compreensão de suas dificuldades. Enfim, uma troca de informações que ajuda a mãe a melhorar seu relacionamento com os filhos, bem como as acalmam em relação a seus medos e angústias decorrentes da separação de seu filho tão pequeno.

São negativas quando os educadores do CEI não entendem o que os pais querem dizer com tais reclamações e preocupações, o que leva a um rompimento dessa relação. Geralmente, essa atitude dos educadores é contagiada por preconceitos, julgamentos inadequados e enquadra-se no que eles julgam ser verdadeiro quanto aos procedimentos educativos, de higiene, de organização, de alimentação, de estética e de hábitos culturais.

Um dos aspectos que merece reflexão quanto ao trabalho dos educadores do CEI com a família diz respeito à concepção de família. Segundo Sarti esta se constitui como uma realidade de ordem simbólica, que se delimita por uma história contada aos indivíduos e por eles reafirmada e ressignificada nos distintos momentos e lugares da vida familiar, considerando a relação da família com o mundo externo (Sarti, 1999).

            Se ambos os contextos, a família e o CEI, comungam do objetivo comum de educar a criança, é exatamente nesse ponto que há conflito, porque os educadores tendem a confundir a família da criança com a sua família e vice-versa. O conflito é encontrado na maneira como cada um dos contextos posiciona-se diante de uma perspectiva que não é idêntica à sua e que pode ou não se aproximar, se posicionar a favor  ou contra (Bassedas, Huguet, Solé, p. 283, 1999).

            Enfim, educar a partir da escola também apresenta hoje algumas dificuldades específicas, diferentes das que poderiam existir há alguns anos (Bassedas, Huguet, Sole, p. 284, 1999). A partir do entendimento de que a família deve compartilhar a educação do seu filho com a escola, a sua participação desvela outros conflitos nessa relação. Sarti conclui, em seu estudo sobre as famílias, que “o processo de crescimento no interior da família como uma questão que diz respeito não apenas às crianças, mas também a todos os seus membros, ao longo de suas vidas, à medida que as experiências podem ser permanentemente re-elaboradas” ( Sarti, 2004).

O CEI tem um papel importante nesse processo de crescimento, abrindo espaços para escutar a história das famílias, seja na entrevista inicial, nas rodas de conversas, das quais os pais participam, seja nas reuniões pedagógicas, com  temas que provocam diálogos sobre as mais diversas questões, como o ‘momento’ de determinada faixa etária. Ou ainda quando as mães procuram individualmente as professoras, a coordenadora ou a diretora para conversar. Nesse caso, muitas vezes, nos deparamos com outros pontos de vista, diferentes dos que consideramos. No entanto, são legítimos nas experiências trazidas pelas famílias, por exemplo: “Eu costumo colocar a minha filha de castigo e dou-lhe umas palmadas; foi assim que fui educada”; ou: “Coloque meu filho de castigo quando ele tirar o sapato ou a roupa”.

 Cuidar e  educar a criança exige um esforço de compreensão, nem sempre fácil, quando estão em jogo  pontos de vista diferentes de nossas próprias referências culturais e sociais, principalmente quanto ao atendimento às famílias pobres (Sarti, 2004). Quando a professora diz: “Esta mãe não se interessa pela criança, não cuida de sua mochila” ou “Ela está sempre arrumadinha e perfumada, mas seu filho vem sem tomar banho”. Ambos os casos, seja por parte da família, seja pela avaliação da professora, exige um exercício dificílimo de autocontrole para não se fazer um julgamento, mas sim para compreender as razões e ter em conta de que se trata de relações intersubjetivas que ocorrem no âmbito familiar (Freire, 2006).

De certa maneira esses conflitos são esperados quando se cuida da mesma criança em contextos diferentes. O atendimento de um coletivo de criança - dar banho, trocar, cuidar da sua higiene - necessita de um planejamento no âmbito da função do CEI, que difere do contexto familiar. A participação e a convivência da família no espaço do CEI podem ajudar os pais  a valorizarem as atividades e a produção de seu filho, bem como a entender melhor as normas  para poder dar sugestões visando  favorecer a convivência harmônica de todos.

As diferenças que surgem na gestão desse relacionamento-confronto, como avalia Bonomi, é de que o resultado do complexo entrelaçamento de vários fatores.  Todos eles, de natureza conflitante, estão inseridos na cultura de cada família e do CEI, na forma de cuidar e educar a criança.

Os conflitos são maiores no que se refere aos cuidados porque cada pessoa constrói, ao longo de sua vida, um jeito de cuidar. Mesmo estando claro que a instituição não separa o cuidar do educar,  cada educador e mãe querem deixar sua marca “no seu jeito de fazer” com a criança, finalidades algumas vezes “secretas” de garantir os espaços para perpetuar a sua própria existência e para manter a marca exclusiva em seu território (Bonomi, p. 168, 1998).e sobre suas próprias tarefas, do que sabe e incorporou ao longo de sua vida como deve cuidar do outro.

Para desvelar as intenções e tornar negociáveis alguns procedimentos, há a necessidade de aproximar-se do outro, buscando uma abertura nessa relação CEI-Família. Entender as diferentes atitudes desses atores, cada  um com seu discurso próprio, revela uma realidade que foi cultivada numa cultura vivida: “Quando ouvimos as primeiras falas, não aprendemos apenas a nos comunicar, mas, acima de tudo, captamos uma ordem simbólica, ou seja, uma ordenação do mundo pelo significado que lhe é atribuído, segundo as regras da sociedade em que se vive”  (Sarti, p. 14, 2004).

Compartilhar com a educação é facilitar a escuta e provocar um diálogo entre as famílias e CEI acolhendo as diferenças. É possibilitar o crescimento de todos os envolvidos à medida que nos deparamos com novos conceitos, regras e outras maneiras de viver e de se apropriar de novos conhecimentos significativos para nossa vida no coletivo.

Nessa relação interagimos com as diferenças de atitudes, valores, gostos, sabores, estéticas, religião e outros, que de certa maneira vão influenciar nas expectativas e ações das famílias com o CEI e vice-versa.

Pensar a família,  não como unidade, mas como singularidade, por todos os profissionais do CEI, vai depender da abertura e do entendimento da concepção de gestão democrática. Pois é no interior dessa unidade vivida e participativa que é possível construir novos conceitos de trabalho com a família.

 A responsabilidade  dos educadores  envolve ações práticas, planejamento e reflexão quanto à  socialização das experiências vividas com as crianças, fruto da realização de um projeto, a começar pela  organização de espaços adequadamente mobiliados para possibilitar a brincadeira de faz-de-conta.

 O primeiro passo dos educadores do CEI Suzana Campos Tauil  foi interferir no ambiente, já que este é um sistema vivo, em transformação. Mais que um espaço físico, inclui o modo como o tempo é estruturado e os papéis que cada um deve  exercer, condicionando seu  modo de sentir, de pensar e de se comportar, o que afeta dramaticamente sua qualidade de vida.  O ambiente funciona contra ou a nosso favor, enquanto conduzimos nossas vidas (Greenman, p. 5, 1988).

Conforme observa Madalena Freire, o espaço é o retrato da relação pedagógica, porque registra, concretamente, através de sua arrumação (dos móveis...) e organização (dos materiais...) a nossa maneira de viver esta relação. No CEI o espaço já existe como uma representação, um ambiente que deve ter a confiança da família, ao mesmo tempo que ela tenha um espaço de vivências e o reconheça como seu no interior da escola.

            Pertencer é possibilitar que a família conviva diferentes momentos, no espaço do CEI -  seja em reuniões com pequenos grupos, oficina, eventos, seja em cursos e palestras e que haja a compreensão recíproca de diálogo e  escuta, tornando as finalidades  reconhecidas como princípio  e  construindo juntos experiências de crescimento para os atores: crianças , pais e educadores. Assim, aprendem todos a conviver com as dificuldades, as contradições, as esperas e os longos tempos que, às vezes, requerem o estabelecimento de um relacionamento de confiança entre os envolvidos. (Bonomi,  p. 172, 1998).

O CEI Suzana Campos Tauil, ao longo do tempo, tem demonstrado em sua prática a importância da participação da família na educação da criança, procurando ter flexibilidade de horários e garantindo  maior participação de pais e mães nos diversos eventos, como reuniões, mostras, festas e outros.

Os educadores do CEI estão cientes das dificuldades dos familiares em acompanhar a educação de seus filhos, por diferentes motivos, principalmente a falta de tempo. A maioria trabalha oito horas por dia e tem medo de perder o emprego quando precisa se ausentar para participar de um evento  que o CEI organiza. Para garantir maior participação da família, procura-se  adequar os horários das reuniões com a disponibilidade de tempo das famílias. Esses dados foram coletados por meio  de uma pesquisa sobre o “melhor horário’ para que os pais possam participar dos eventos no CEI. Assim, há diferentes horários de reunião de pais , aumentando assim a possibilidade de participação.

No dia-a-dia, algumas mães entram e saem muito apressadas, no ritmo da cidade grande. Com dupla jornada e não residindo na comunidade se apressam para chegar logo em casa, não têm tempo para conversar com a professora. O caderno diário de comunicação é um meio que tem ajudado a melhorar o diálogo entre professora e mãe. Também o telefonema é outro meio de comunicação diária entre a família e CEI. A mãe, a qualquer momento, pode ligar e falar com a criança, com a professora ou com a Direção.

            Nesse entra e sai rápido, as conversas com as professoras são também rápidas e superficiais, sem uma troca de idéias. O máximo a que chegam “são fatos”, que algumas vezes se traduzem em queixa de “cuidados”.

Se as mães não dispõem desse tempo no CEI, em casa também acabam não tendo tempo para ficar com o filho, brincar com ele, contar histórias, colocar limites, enfim educá-lo. Acreditamos que o CEI deve ter esse papel, mas não deve assumi-lo e sim compartilhá-lo.

Essa falta de convivência diária das mães com seu filho, uma ausência entre oito e doze horas, acaba provocando certo estranhamento em algumas mães quando se encontram com ele. Percebem-se, na entrada e saída das crianças, as queixas das mães às professoras ou à coordenação com relação à dificuldade de entendê-lo, de não saber lidar com suas birras, de não saber brincar do jeito que ele aprendeu no CEI, de colocar limites, entre outras questões.

O CEI tem um contato e uma comunicação abertos com as famílias. No entanto, essa relação direta necessita ser ampliada no aspecto da comunicação de “idéias”, no ambiente educativo.

Essa comunicação  foca na relação dos pais com as professoras, pois elas têm contato diário e direto com os familiares. Como cada professora tem um projeto de trabalho junto a seu grupo de crianças, a interação entre professor/família  ocorre “via projeto de grupo”. O meio de comunicação sobre o projeto pedagógico, pode acontecer mediante conversa na entrada e saída da criança, ou  um livro (diário) quando alguma professora inclui o pai na colaboração do projeto com as crianças. Também se pode usar o caderno diário que vai e vem ou as exposições  das produções das crianças nos corredores. Estas são expostas de maneira que as crianças possam mostrar suas produções aos pais. Por fim, há apresentação, nas reuniões bimestrais, dos port-fólios dos trabalhos das crianças  no final do projeto.

A este respeito é interessante citar depoimentos de mães que estão no  Diário do Sapo Bocarrão, parte do projeto “CROC! CROC!”, projeto do   grupo de crianças da Professora Miriam:

“Como da outra vez em que foi realizado um trabalho semelhante com o grupo do Arthur só tenho elogios a fazer. A idéia é, de fato, excelente, não somente pela criatividade e participação da família, mas principalmente pelo incentivo à leitura que está subentendido. Para nós pais  passa esse ótimo hábito, que só nos trará benefícios, principalmente   a nossos filhos.,   Sem falar na aproximação que provoca entre filhos e pais, pois estes muitas vezes cansados do trabalho (eu, muitas vezes) não dão a devida e merecida atenção a seus filhos, o que é  possibilitado por esse contato importantíssimo. Na minha opinião, essas são as maiores vantagens, dentre muitas outras, que mais me chamam a atenção ao fazer essa atividade ou ainda, essa gostosa lição de  casa com o Arthur. Que venham outras ... Abraço Regina”

                                               (Diário do Sapo Bocarrão, 2006)


“Adoro ver a Juliana fazendo o som do “Sapo Bocarrão”. A visita do “Sapo Bocarrão” gerou atenção, conhecimento e aprendizado. Enquanto eu (mãe) lia a história, a Juliana simulava como cada bichinho faz. Conhecemos também o que ele gosta de comer. Esta visita nos estimula cada vez mais a nos reunirmos com os filhos, proporcionando um momento prazeroso e  fazendo com que nós, pais, percebamos a capacidade intelectual dos filhos. Mostra também um pouquinho do trabalho que vocês educadoras fazem com as crianças na escola. Parabéns pelo trabalho rico em aprendizado e fico muito feliz de nos incluir também. (Rosângela)

(Diário do Sapo Bocarrão, 2006)


Os dois depoimentos de mães evidenciam uma rede de relações que se configura numa mediação educativa entre mães, crianças e professora. Ao mesmo tempo revela um encantamento e interesse da mãe em perceber o aprendizado do filho (a) e o reconhecimento do papel da professora nesse trabalho.

Outro processo de comunicação-educativa são as oficinas cujo exercício é vivenciar ações da rotina diária das crianças. Nelas são  apresentados vários aspectos da rotina escolar, como exposições das produções das crianças, como pintura, brincadeira com água, caixa de areia, roda de histórias, roda de conversa, brincadeiras infantis nas quais os pais e as crianças vivenciam juntos. As atividades fazem parte de um circuito diário vivido pelas crianças.

            Com essas oficinas o CEI procura também despertar o interesse dos pais na leitura, permitindo a retirada diária de livros de história para serem lidos em casa. As famílias que costumam ler histórias para os filhos são as que mais retiram. Um fato interessante observado é que a criança tem tomado a iniciativa de escolher o livro, às vezes, sempre o mesmo. Outro, é que algumas mães têm se incomodado quando o filho deseja levar o livro que ela já leu para ele várias vezes. Foi sugerido, então, que a mãe escolha uma história que deseje contar e o filho leve o livro que deseja.  Nessa idade as crianças precisam ouvir e ver várias vezes a mesma história. No início eram poucas as mães que retiravam os livros, mas hoje o número de crianças que querem que a mãe leve o livro para ler para elas já aumentou significativamente.

Outra forma de provocar a conversa com os adultos, como é feito  com os pequenos, é a “roda de conversa”, adotada na  rotina. Diariamente os educadores compartilham com as crianças experiências, valorizando a escuta e a fala, desde conversar sobre a rotina,  o que foi combinado,  ou outros assuntos de interesse da criança, que  é livre para expressar suas idéias, pensamentos, interesses e preocupações.

A linguagem é importante para o desenvolvimento intelectual da criança. No contexto do CEI há diversidade de linguagem, sendo que algumas delas,  regionais, divergem da linguagem “padrão” da escola. Mas os educadores estão conscientes de que, em sua intenção de educar e cuidar:

            “a linguagem é simultaneamente um instrumento de pensamento, um meio de comunicar e que, como tal, deve ser estimulado pelos educadores”... “ela deve integrar-se no que designamos por aprendizagem ativa”. A linguagem não deve estar separada das experiências-chave do currículo, mas integrada nelas”...”a linguagem deve sempre que possível, estar ligada à experiência direta, o adulto deve introduzir vocabulário, conceitos e formas lingüísticas  novas em ligação com a atividade concreta desenvolvida pela criança” (A criança em ação, p. 195).

            A linguagem auxilia a criança a aprender conceitos abstratos, a comunicar-se melhor e a resolver problemas. Os pais quando vivenciam a situação de roda de conversa exercitam o pensamento, falam de si e ouvem o outro. Além de saírem da solidão, expressando sentimentos e pensamentos, podem entender o significado daquele momento na vida de seu filho, que ocorre diariamente no CEI.

            A oficina de roda de conversa com os pais segue o mesmo mecanismo espontâneo de manifestação sobre assuntos de interesse dos participantes. Uma pergunta é lançada, como desencadeadora da conversa, por exemplo: “de onde viemos”. Ou ainda no caso da reunião pedagógica bimestral com mães e pais, que ocorre com o grupo de idades separadamente, nas salas de atividades, com a apresentação pela professora  dos projetos desenvolvidos durante o ano, com as crianças. Nesse encontro, procura-se discutir algum assunto de interesse do CEI e da família, por exemplo, o  tema “Limite”. O  propósito levá-los a discutir e debater como cada pai e mãe lida com o limite  na educação dos  filhos.

            No próprio debate aproveita-se  a opinião de algumas mães ou pais que  coincide com as  experiências dos educadores.  Busca-se negociar atitudes comuns já que se entende que não há receitas. A intenção é levá-los a discutir os resultados dos castigos e palmadas e incentivá-los a ler  textos  sobre o assunto para conhecer a , opinião de outros especialistas.

            Essas reuniões e oficinas têm melhorado o nível de comunicação entre a família e o  CEI, em particular a relação entre mães e professoras, na troca de informações e conhecimento sobre a educação da criança e o papel da instituição na  educação , conforme depoimento das professoras:


“Verifiquei que tanto os pais quanto os filhos estavam envolvidos na atividade e demonstravam prazer no que fazia. Observei que são poucos os momentos em que isso é possível na vida deles, para alguns foi à primeira vez que realmente se propuseram a estar com a criança atuando com atividades desse tipo” (Oficina de Arte, 2008 - Professora Mary).

“Creio que a aprendizagem maior foi à aproximação da escola com as famílias, proporcionando uma nova visão da escola àqueles pais que nunca tinham freqüentado o CEI. Aprendi que o tempo que eles dispõem para brincar com os filhos é restrito, uma vez que a maioria trabalha o dia inteiro. Com essa oportunidade de envolvimento com a escola, puderam conhecer melhor os ambientes utilizados pelas crianças, as atividades que são desenvolvidas com eles e conhecer as pessoas que interagem com seus filhos” (Oficina Construção da Agenda 2008 – Professora Sônia).

“Aprendi como é boa a interação com as famílias. Senti um prazer gostoso de participar dessa atividade e vejo como gratificante essa união da família com a escola” (Oficina com Miniatura – caixa de areia 2008 –Professora Móbile).


“Como professora, no dia-a-dia, não tenho tempo para dar uma atenção aos pais ou responsáveis. Pude ver os pais na companhia do filho e dedicando uma atenção especial” (Oficina de História 2008 – professora Yukie).


            Dessa maneira os pais têm participado e opinado sobre o fazer das crianças, entendendo o processo educativo, conforme depoimento de algumas mães sobre as oficinas ocorridas aos sábados:


“Nas oficinas eu aprendo a entender melhor o meu filho nas suas ações, aprendi a brincar com ele. Acho que queria  chamar a minha atenção porque parou de morder e beliscar” (Ana Claudia, mãe de Marcos Vinícios, 2008).

“No sábado com recreação, passamos (eu e a Malu) momentos muitos especiais, pois foi um momento em que nos desligamos das rotinas normais e nos envolvemos em atividades juntas. Pude dar uma atenção integral a ela e acompanhá-la fazendo desenho, pinturas e colagem. Isto é essencial na relação mãe-filha e nosso cotidiano em São Paulo nos afasta de momentos tão especiais. Sempre é bom resgatá-los” (Manuela – mãe de Malu – 2008).

“Eu achei muito legal participar de atividades e brincadeiras que minha filha faz aqui. É como se eu voltasse a ser criança. Adorei a oficina de história. Pude ver o trabalho das professoras com as crianças. O CEI tem uma equipe muito boa, pena que a minha filha fica só esse ano” (Adriana, mãe de Maria Eduarda – 2008).


A importância fundamental de a família colaborar com a educação de seu filho, participando no dia-a-dia do trabalho educativo no CEI Suzana Campos Taiul, é que na relação de convivência aprendemos a nos humanizar. Com a aproximação rompemos com o estranhamento do outro, à medida que reconhecemos a família na sua singularidade, procurando aceitar os discursos diferentes, reconhecendo-os como legítimos e desfrutando esse envolvimento como um suporte ativo na educação da criança.

            E acima de tudo, o trabalho com a família possibilita um compromisso de educação que dê voz à criança, superando uma cultura de só cuidado, na qual  o centro era o adulto, ou seja, uma prática que não incluía a infância. Segundo Malaguzzi  a criança é feita de cem linguagens mas roubaram-lhe noventa e nove a escola e a cultura.. Hoje, temos o compromisso de construir junto com a família um trabalho educativo voltado para a criança, para poder devolver o que é de  seu direito, "as noventa e nove linguagens .”
CEI Suzana Campos Tauil - Gestão e docentes.